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A cultura caiçara

Os jovens e a tradição

 


Crianças segurando uma rabeca em construção, área rural entre
Iguape e Cananéia, 1982 (foto: Kilza Setti)

Apesar do processo de mudança que vem enfrentando desde os anos 60, a população caiçara tem mostrado consciência da necessidade de preservar suas tradições. A partir dos anos 90, particularmente, essa tendência ganhou maior intensidade graças à ação de grupos de jovens que passaram a desenvolver iniciativas para reativar festas, músicas e danças de seus antepassados.

Verifica-se que a família é um importante fator na preservação das tradições culturais, seja de hábitos de linguagem, seja de práticas musicais. A família funciona como unidade de preservação, verdadeiro celeiro em que essas tradições são conservadas, repetidas num processo contínuo e transmitidas, naturalmente, aos jovens, nas casas ou por ocasião das festas e celebrações.

Esse interesse pelas tradições, observado em uma parcela de jovens caiçaras, tem sobrevivido à cultura de massa e aos gostos impostos pelo mercado, mas ainda está reduzido a um pequeno grupo que precisa dar visibilidade a suas ações e mobilizar um número maior de jovens para a sua causa, pois boa parcela da população desconhece ou não valoriza seu patrimônio cultural.

Os registros coletados entre os anos 60 e 90 ilustram as queixas dos mais idosos da indiferença dos jovens em relação às tradições; para alguns está tudo perdido – é o ‘fim da era’. Entretanto, no início de 2000, fez-se notada a iniciativa de um grupo de jovens músicos e estudantes caiçaras, que, empenhados em restaurar suas práticas culturais, começaram a desenvolver, espontaneamente, atividades musicais, religiosas, técnicas artesanais, tais como aprendizado em construção de canoas e aperfeiçoamento da tradição de luteria, além de atuarem politicamente no sentido de revigorar as festas tradicionais. Essas ações foram estimuladas a partir de depoimentos que recolheram de seus pais e avós e que acabaram resultando na valorização de antigas técnicas e costumes caiçaras. Este grupo de jovens, desde 2006, aderiu às propostas do Projeto Acervo Memória Caiçara, quando se iniciou o trabalho de mobilização da comunidade (nativos, visitantes e novos moradores) para a retomada do patrimônio imaterial caiçara. Para esse grupo de agentes culturais, o fato de passarem essas ações a ser assumidas por jovens, poderá dissipar a idéia de que tradições culturais são mantidas apenas pelos mais velhos. Desmistificada essa noção equivocada, talvez possam surgir novos estímulos, por parte de outros jovens e até em outros municípios do litoral paulista, no sentido de aderirem ao trabalho do grupo, tanto para as tarefas de mobilização quanto para a difusão cultural e, particularmente, musical.  

 

Devoção e Festas religiosas

 

É curiosa e inspiradora a relação que os devotos católicos estabelecem com os santos de sua devoção. Antes da chegada das religiões protestantes ao litoral, toda casa caiçara mantinha seu oratório com santos, medalhas, fitas, flores coloridas, enfim, um mundo de fantasia, de parentesco e compadrio e de cumplicidade com as imagens dos santos preferidos. A prática de troca de favores entre humanos e santos se faz na relação: oração/graça obtida, ou dança sagrada/graça  a ser obtida, compra de velas e novenas em troca de favores dos santos. Isto em nada difere dos procedimentos de fiéis em grandes cidades. Mas, no mundo rural, essa relação entre devotos e santos é mais próxima. Vestem-se e enfeitam-se imagens, e alguns santos são mesmo escolhidos para padrinhos de crianças. Essa proximidade, quase que intimidade entre os seres intermediários a Deus e os humanos, torna a religião católica, ou o “catolicismo rústico” como propõem alguns antropólogos, algo surpreendente, de sabor único, inigualável e digno de estudos mais aprofundados, como é o caso das histórias sobre São Gonçalo violeiro, um dos santos dos mais prestigiados. Assim é o universo das devoções caiçaras. Oração, música, dança, fantasia, imaginação.

Maneco Almiro e Otavio Batista, em festa do Divino, centro Ubatuba, 1983 (foto: Kilza Setti)
Maneco Almiro e Otavio Batista, em festa do Divino, centro Ubatuba, 1983
(foto: Kilza Setti)

Nos últimos trinta anos, a presença de religiões protestantes não históricas tem desorganizado a prática musical entre os caiçaras, muitas vezes dissolvendo núcleos familiares de produção musical e substituindo, desse modo, seus repertórios tradicionais por hinários das mais variadas igrejas, com predominância dos subgrupos pentecostais. A adesão do caiçara a essas novas religiões se dá, com muita probabilidade, pela busca de novas lideranças e apoio nas situações de contínuas perdas a que foram submetidos.

Devoção e festa são aspectos interligados na cultura caiçara. Os modos de realizar festas estão condicionados a situações mais ou menos favoráveis, em face de elementos como organização social, economia, coesão grupal, dentre outros. Dificuldades financeiras, perdas de espaço ou dissolução das famílias nucleares podem ser também elementos desarticuladores das situações de festas. Nas áreas observadas, parece claro que a interferência de novas religiões vem enfraquecendo as festividades ligadas à devoção.

Festas e comemorações são universais e estão presentes à vida de todos os povos. No Brasil, embora em diferentes ambientes, populações interioranas e costeiras mantêm suas celebrações festivas. Os povos do litoral de São Paulo, assim como os das áreas da Serra do Mar, além das festas promovidas pelo Estado e pela Igreja Católica, elegem e cultuam seus santos padroeiros, sempre inspiradores de festas. Alguns são prestigiados tanto nas comunidades de cultura caipira (do interior do estado), quanto entre os caiçaras. Destacam-se aí, Santo Antônio, São João, São Gonçalo, Nossa Senhora Aparecida, Nossa Senhora do Rosário, Santa Ifigênia, São Benedito, São Pedro, Santa Isabel (referem-se de fato, à princesa Isabel, tida como responsável pela Abolição), Santa Verônica, Sant’Ana, Divino Espírito Santo, Santos Reis (os três reis magos) e Santa Cruz, além dos padroeiros de capelas e igrejas de bairros e cidades, como Bom Jesus de Iguape.

No litoral paulista, sobretudo em Ubatuba, São Pedro é comemorado com feriado local a 29 de junho, procissão de barcos, fogueira, mastro, leilão de prendas e música. Há festas na cidade, nos sertões e praias. A Festa de São Pedro alia a devoção popular às ações institucionais (Igreja e municipalidade). A procissão no mar é grandiosa, com intensa participação de pescadores e população em geral. Os demais santos de junho - São João e Santo Antônio - são festejados em casas que guardam promessas ou devoções. O dia 13 de setembro também é comemorado com feriado em homenagem à exaltação de Santa Cruz, procissão e banda de música. O culto a São Gonçalo não tem dia certo e, em sua homenagem, organizam-se danças sagradas para pagamento de promessas. As Folias de Reis, de dezembro a janeiro, e as do Divino, estendem-se pelo ano todo, exceto no período da quaresma. Nos últimos anos, retornaram as antigas práticas de malhação de Judas, no sábado de aleluia. Moçambiques e congadas são realizadas, em geral, em comunidades de derivação africana, em devoção a São Benedito, Nossa Senhora do Rosário e, mais raramente, a Santa Ifigênia. Em quase todas essas festas, ocorrem novenas, ladainhas (às vezes em latim), rezas, procissões, danças e música. São, quase sempre, independentes da Igreja e favorecem situações de mais intenso convívio entre familiares, reforçando laços de compadrio. Assinale-se, porém, que o crescente número de novos moradores, que, em Ubatuba, já atinge cerca de 70% da população, vem alterando esse quadro, com a introdução de novas práticas culturais e acarretando maior índice de violência no município.

Festas não religiosas

 

Num país em que o catolicismo é definido como religião oficial, é natural que festas e situações de lazer sejam de inspiração religiosa. Estas se mostram predominantemente alimentadas pela tradição e iniciativas populares, ainda que com apoio de instituições como a Igreja e órgãos públicos.

Já em manifestações não religiosas, festivas e de entretenimento, as políticas públicas se fazem sentir na organização de festividades ligadas ao turismo, esporte, datas cívicas e em mostras de expressões artísticas em geral. As ações das secretarias de cultura, esporte e turismo, muitas vezes ligadas a interesses econômicos, são voltadas à promoção de eventos e situações festivas que se estendem ao longo do ano. Essas iniciativas de cunho oficial determinam o calendário de festas e, algumas vezes, ao deslocar datas e canalizá-las para as temporadas de verão, assumem o controle das antigas festas tradicionais e promovem outras. Algumas manifestações tradicionais são incorporadas pelo poder público, tais como corridas de canoas, apresentações de conjuntos musicais e festivais de viola; outras são novidades, algumas vezes inspiradas em costumes caiçaras, tais como as festas ligadas à gastronomia caiçara, apresentação de grupos de seresteiros, festivais de canções ou concursos de marchinhas de carnaval. Há também as festividades de iniciativa eminentemente oficial, como as comemorações de aniversário das cidades, as apresentações das bandas municipais ou de grupos de teatro, de dança, de capoeira, dentre outras.

Há expressões da cultura não religiosa que permanecem vivas, mesmo sem apoio oficial. No entanto, em certas circunstâncias, são utilizadas como atrativo, como produto curioso, exótico, para mostra em eventos oficiais.

Além das manifestações já mencionadas - congadas, moçambiques, Folias de Reis e Divino, e outras festas calcadas na devoção aos santos - que, se exibidas em cidades, atraem público, também o carnaval promove brincadeiras de rua. Outras manifestações ocorrem em datas já determinadas, como é o caso dos blocos de foliões, dos mascarados – à margem dos desfiles de escolas de samba - do caiapô, dos folguedos do boizinho em suas múltiplas variantes, das malhações de judas, da marujada, da semana de `caiçarada´ e do`Raloim´, que deu origem ao dia do saci, em Ubatuba.

A expressão máxima da música e da dança caiçara é o fandango, também denominado função ou brincadeira, que reúne um conjunto de danças que, em geral, se apresentam em forma de suíte, a exemplo das danças européias de salão, nos séculos 18 e 19. É importante destacar que a palavra fandango apresenta múltiplas significações na península ibérica e nos países da América hispânica; da mesma forma, no Brasil, seu significado no litoral sudeste e sul difere daquele do nordeste, em que indica um auto dramático.

Iaiá e Ditinho apresentam o “Boi Canarinho” na Praia de Itamambuca, Ubatuba. 1989 (foto: Kilza Setti)
Iaiá e Ditinho apresentam o “Boi Canarinho” na Praia de Itamambuca, Ubatuba. 1989
(foto: Kilza Setti)

Há uma infinidade de pequenas danças que geraram formas musicais coreográficas, praticadas ainda nas cidades e vilas litorâneas, desde o Rio de Janeiro até o Rio Grande do Sul. É conhecido o movimento migratório de Portugal do ultramar (sobretudo Madeira e Açores) para o sudeste do Brasil. Natural que os repertórios insulares portugueses fossem aqui adaptados à realidade brasileira e tivessem vida e fisionomia próprias. Muitas danças conservam ainda seus nomes portugueses, dentre outras: canaverde, chamarrita, ciranda, serrabalha, querumana, manjericão, marrafa, sinhaninha, tirana e vilão de lenço. Algumas ganharam preferência entre nossos caiçaras, tais como: canoa, caranguejo, panela de arroz secô, peixinho do mar, tontinha, tira o chapéu, anuzinho, ubatubana, galinha morta e curitibana. Há, ainda, danças ditas valsadas e as rufadas, que incluem sapateado e palmeado. Dessas últimas, o xiba ou batepé é o mais comum em festas e ainda encontrado em pleno vigor, com a função de abertura nas noites de fandango. Já em madrugada alta, tocam o `recortado´ e ao raiar do dia, dança-se a tontinha para encerrar  a festa. Todas as danças do fandango incluem, além das vozes e das violas, o pandeiro e, eventualmente, um cavaquinho e um violino.

Curioso notar que, muitas vezes, comemorações religiosas como a dança de São Gonçalo ou as Folias de Reis e Divino, terminada a parte sagrada, desencadeiam a seqüência de danças de caráter profano, que encerram a festa – e, nos últimos anos, após as danças caiçaras, a festa pode até terminar em baile, ao som de equipamentos eletrônicos. Mesclam-se, assim, sagrado, profano, antigo e novo, mas o que está presente é a fantasia, o “homo ludens”.

Apesar de existirem, ainda neste início de século 21, bom número de velhos e até jovens dançadores, verifica-se que, nos encontros musicais em que não há dançadores suficientes, o conjunto vocal / instrumental mantém vivas as formas musicais das danças, independentemente de se praticarem ou não suas formas coreográficas.

 

 

 

 

 

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